A Formação das Ondas

Confira mais um texto poético da Coluna Pandemia Periférica e apoie a Editora Venas Abiertas a continuar fomentando a literatura periférica

  • Data: 19 de novembro de 2020
  • Categoria(s): DestaquesPandemia Periférica

Na Coluna Pandemia Periférica dessa semana, ficamos com a poesia de Leandro Zere e Karine Bassi. Além de professora, escritora e arte-educadora, Karine é idealizadora e fundadora da Venas Abiertas. Essa editora cumpre um importante papel social, publicando livros à margem do mercado editorial, valorizando e disseminando a literatura produzida por mulheres, negres, LGBTQIA+ e periférics. Conheça o trabalho realizado e apoie!

Um pouco mais além das ruas de asfalto quente da fria capital mineira cercada por montanhas. Um pouco mais além; sentido oeste. Sentimento à cada centímetro feito prece nas bocas dos poetas. Quarta sempre foi nosso dia de oração. Nos bares e botecos do Velho Barreiro o que se ouvia se assemelhava com uma revolução e era. As vozes coletivas ecoaram para além das ruas de minério ferro, invadiram becos, barracos e botecos. Não dando voz, mas sim ouvidos a quem sempre teve algo a dizer; e entre sussurros e gritos as ondas sonoras se misturavam formando ondas cada vez maiores, cada vez mais fortes.

O salgado das lágrimas, misturado a batidas das ondas contra os barracos de tijolos fez subir a maré afogando qualquer silêncio raso de biblioteca. E como revolução pré-qualificada, nascentes de oceano foram surgindo por todas as favelas brasileiras. E ali, a poesia tomava corpo: vestia uma minissaia, boné aba reta e muitas vezes tinha um entorpecente entre os dedos que é pra aliviar as batidas das ondas contra o concreto. Mas logo vieram as marés baixas expondo o mangue e os plásticos na areia da praia. Nada que Chico já não tenha musicado, mas o silêncio corrompia os becos novamente, e agora era preciso não se sentir só.

Aqui ecoamos mais uma vez, na tentativa de afogar o caos entre páginas. E é aqui que corpos e sonhos se misturam entre poetas e poesias que vem não só do morro, mas também do asfalto e de estradas de chão de terra. Vem de dentro. A união de quem apoia e de quem é apoiado, do estudante com o professor, da palavra com o corpo. São vivências múltiplas que no contato se multiplicam e formam um corpus único, poético, de resistência e de relevância inenarrável. De um belo horizonte onde a vida é escrita. De um rio onde se passam janeiros e fevereiros brotaram águas de março e lá se vai mais um abril, deixando afagos de abraços que não se tocam mas se sentem, e sentem muito!

Atravessando mares e marés, no ócio dos seus ofícios, mãos se entrelaçaram para traçarem um caminho, não para a literatura, mas para quem a faz. Para que estas e estes trabalhadores do verso possam continuar seus planos de dominar o mundo com a palavração.

Aqui, somos narradores infindáveis de histórias reais! Nosso ofício é lapidar as palavras como quem dá vida ao sol num dia bom de praia!

Sentimos que um tsunami logo virá por aí e os gritos que ele trará será capaz de calar todos os silêncios que nos trancaram aqui. Sintam-nos!

Leandro Zere e Karine Bassi
Belo Horizonte, MG – 05/05/2020
Texto originalmente publicado como prefácio do livro Ócios no Ofício (Editora Venas Abiertas, 2020)

Conheça e contribua para REXISTÊNCIA da Editora Venas Abiertas

A Editora Venas Abiertas é uma editora popular de caráter sociocultural, que foi idealizada e fundada pela professora, escritora e arte-educadora, Karine Bassi. 

Nasce em 2018 como um novo selo fomentador da literatura produzida por figuras à margem do mercado editorial, valorizando e disseminando a literatura produzida por mulheres, negres, LGBTQIA+ e periférics. Uma literatura insurgente das periferias a muito tempo invisibilizadas, esta que tem sido um potencializador, como aponta Conceição Evaristo, de muitas escrevivências. Essa Literatura muitas vezes silenciada, excluída e marginalizada dos grandes circuitos culturais no país e que se faz necessária para o rompimento de ideal eurocêntrico e canônico.

Por seu caráter social, a Venas Abiertas pratica valores muito aquém do mercado, investe em muitos projetos, cria e recria possibilidades de publicação e distribuição dos livros. As publicações acontecem em caráter colaborativo, mas em alguns casos é feita com um aporte financeiro destinado.  Devido a crise do Novo Coronavirus, diversos autores(a) que publicaram com suporte financeiro da Editora se encontraram em situação de vulnerabilidade social agravada e sequer conseguiram vender seus produtos. Diante deste cenário, a Editora Venas Abiertas também se encontrou em semelhante situação ao acumular dívidas destas publicações que não puderam ser custeadas por seus autores (as). Entre as dívidas somam-se pagamento de serviços editoriais, de produção e pagamento de serviço gráfico de impressão. 

Deste modo, para que a Editora consiga sanar suas dívidas e continuar atuante com os projetos, fez-se necessária a criação de uma campanha de financiamento coletivo, para arrecadar os valores que serão utilizados para quitar estes débitos.

Para que a campanha tenha maior acesso e venha possibilitar que novos leitores conheçam a história e todo potencial da Editora, foram criados diversos kits com livros publicados por nós, que permanecem em estoque e que serão distribuídos como brindes à todes que contribuírem para a continuidade e fortalecimento da Editora Venas Abiertas.

Acesse a campanha através do link: https://benfeitoria.com/ajudemavenasabiertas


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