A situação das ocupações urbanas de BH na pandemia

Milhares de pessoas vivem nas ocupações urbanas espalhadas pela cidade e, neste contexto de pandemia da Covid-19, têm sido impactadas fortemente, dadas as situações precárias de infraestrutura sanitária, dentre outros problemas.

  • Data: 27 de agosto de 2020
  • Categoria(s): Quarentena na periferia

As ocupações urbanas estão em um contexto periférico muito específico, seja por estarem localizadas em regiões com urbanização muito precária ou por, mesmo quando próximas ao centro da cidade, não terem nenhum tipo de atendimento público às necessidades básicas. Há precarização ou ausência de serviços de saúde pública e saneamento, o que agrava a situação das ocupações neste cenário de pandemia em que vivemos. Casos como os das ocupações Carolina Maria de Jesus e Paulo Freire, que ficaram sem abastecimento de água em plena pandemia, são apenas alguns exemplos de como esses territórios são historicamente prejudicados pelo não atendimento dos serviços públicos mais básicos.

Segundo o coordenador nacional do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) em Minas Gerais, Thales Viote, existem mais de 120 ocupações urbanas em Belo Horizonte, número que vem crescendo desde 2008 e que representa uma média de 120 mil pessoas.

“Se a gente pensar que são quase 40 mil famílias e que cada família tem cerca de 3 a 4 pessoas, então você tem um número altíssimo de pessoas que vivem nas ocupações urbanas, que são a saída de moradia de grande parte das pessoas, das pessoas que vivem em condições econômicas precárias na cidade”, afirma Thales.

Estamos falando de uma parte expressiva da população do município, que se encontra completamente desassistida e vulnerável às consequências da pandemia de Covid-19.

As ocupações na pandemia

Para Thales, as ocupações estão inscritas num lugar um pouco confuso. São territórios de luta pelo direito básico de moradia e constantemente têm que enfrentar o Estado para a garantia desse direito e de outros como saúde, alimentação, saneamento, infraestrutura viária, entre outros. Isso tudo se agrava no contexto de pandemia da Covid-19.

“Como você vai pedir uma condição de higiene para a não transmissão da Covid se você não tem nem fornecimento de água ou escoamento de esgoto seguro no território? Cem por cento do esgoto de Belo Horizonte já foi identificado com Covid. E o esgoto que corre solto nas ocupações, nos bairros pobres da cidade?”, indaga Thales.

Então, as ocupações urbanas, como lugares de ausência do Estado e de luta por direitos básicos, acabam muito prejudicadas em termos de saúde básica, especialmente na pandemia. A situação piora ao se considerar o alto adensamento.

“Ocupações do Barreiro, como a Eliana Silva, têm casas com 63 metros quadrados em que você têm famílias com seis, sete membros. No caso de uma pessoa que tem suspeita de Covid, como fazer o isolamento dela numa casa com dois cômodos organizados em 63 metros quadrados? Então esses são problemas que as periferias vivem e as ocupações urbanas não estão livres deles”, afirma Thales.

Esse cenário se agrava devido ao fato de a maioria dessas famílias ser composta por trabalhadores e trabalhadoras informais, trabalhadores da construção civil, trabalhadoras domésticas, que são setores que já vem sofrendo muito com a recessão econômica. O processo que estamos vivendo e os cuidados necessários para a prevenção do Covid-19 prejudicam diretamente a atividade dessas pessoas. São setores que estavam muito prejudicados e que agora apresentam-se ainda mais vulneráveis.

Ações de enfrentamento

Diante desse cenário complexo, as ocupações organizadas, que são aquelas em que o MLB atua, têm se articulado para encontrar soluções. O movimento, que luta pela reforma urbana e pelo direito humano de morar dignamente, tem atuado fortemente na construção de campanhas de solidariedade, como a Rede Solidária MLB. Essa iniciativa está disponível nas redes e tem conseguido atender mais de 10 mil famílias no país, desde o início da pandemia, sendo Minas Gerais um dos locais mais fortes desse trabalho. Sobre essas campanhas, Thales afirma:

“São redes solidárias que se organizam para comprar cestas básicas e material de limpeza, fundamentais para as famílias, até a distribuição de informação, como a produção podcasts, rádiozap, panfletos digitais, panfletos impressos, passando de porta em porta para fazer a conscientização dos cuidados e o acompanhamento das famílias”.

Algumas ocupações têm conseguido manter centralizado o cadastro das famílias, acompanhando e orientando caso a caso. A presença do movimento social e da organização popular é o que tem garantido, diante de uma ausência completa de propostas sólidas do Estado, a continuidade das famílias com mínimas condições de vida durante a pandemia.

Apoie

Para apoiar as ocupações urbanas organizadas junto com MLB, acesse aqui.

Para ajudar ocupações urbanas de Minas Gerais:

– Vakinha: http://vaka.me/976399

Depósito ou transferência:

– Caixa Econômica | Agência: 0081 | Operação: 013 | Poupança: 66148-5 |Titular: Manoel Inacio Vieira | CPF: 120.732.696-80

Locais para doação:

– Ocupação Carolina Maria de Jesus: Rua Rio de Janeiro, 109, Centro – Belo Horizonte
– Creche Tia Carminha (Ocupação Eliana Silva): Avenida Perimetral, 154, Vila Santa Rita, Região do Barreiro – Belo Horizonte

Matéria escrita pela voluntária Laura Pimenta


Últimas do instagram

The access_token provided is invalid.