“Apadrinhe uma de nós”: coletivo realiza campanha para auxiliar diaristas da região metropolitana de Belo Horizonte

“Empregadores ainda não têm total confiança para nos chamar para dentro de suas casas”, afirma liderança do Tereza de Benguela; procura pelo serviço diminuiu, mesmo após retomada gradual de atividades

  • Data: 23 de setembro de 2020
  • Categoria(s): Compartilhar para multiplicar

As trabalhadoras domésticas compõem o maior grupo de mulheres ocupadas no Brasil, cerca de 14,4%, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Possuem rendimentos iguais ou inferiores a 50% da média de todas as pessoas ocupadas, como indicam dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), que também revelam que 70,4% das trabalhadoras domésticas da região tiveram redução das horas trabalhadas, perda de salários ou foram demitidos após a pandemia de Covid-19.  

“Diante desta crise causada pela Covid-19, todas e todos fomos impactados, entretanto as trabalhadoras domésticas e suas famílias não devem ser as únicas a arcar com seus custos. Mais uma vez, a redistribuição é fundamental para que a desigualdade não continue se acentuando na região”, acentua o estudo da Cepal.

Como resposta às necessidades econômicas diante da distanciamento social, o grupo de mulheres diaristas da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) que compõem o Coletivo de Faxinas Tereza de Benguela criou a campanha  “Apadrinhe uma de nós”. Durante quatro meses, o apadrinhador colabora com até R$120,00 para uma das trabalhadoras do coletivo. O valor arrecadado vai ajudar a trabalhadora a pagar as contas, a comprar alimentos e medicamentos e arcar com as necessidades básicas de suas famílias, diante da diminuição do número de faxinas.

Trabalhar para quem? 

“Não há solicitações de faxina como antes da pandemia. A vida voltou, menos para as pessoas mais pobres. A crise econômica também atrapalha”, explica Renata Aline, liderança do coletivo. Mas ela ressalta outros motivos, como o temor desses empregadores em conviver com pessoas de outra classe social, que acreditam terem maior probabilidade de transmitirem Covid-19 que seus amigos ou familiares que continuam a frequentar suas casas. 

“Se não entendermos a leitura de classe e a exploração quando falamos de faxina, vamos achar que o nosso trabalho se vende como os outros. Como eles não queriam a nossa faxina na casa deles, também não compraram o voucher”, argumenta Renata, sobre o insucesso da campanha que o coletivo lançou no início do distanciamento social com o objetivo de empregadores pagarem antecipado os serviços de faxina, que seriam executados após a pandemia.

Como indica estudo realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a demanda por trabalho doméstico é bem concentrada em determinada faixa econômica, já que está diretamente relacionada a contratantes com uma maior renda familiar. Em áreas urbanas, no Brasil, 21,8% das famílias contratam serviços de domésticas, principalmente aquelas com filhos, cujos pais trabalham fora de casa. Por outro lado, as trabalhadoras domésticas, de acordo com o Dieese, também são chefes de família, aproximadamente 45% delas, e precisam deixar seus filhos em casa para realizarem as faxinas.

Trabalho essencial?

A maneira como ocorre a relação dos empregadores com as trabalhadoras domésticas no Brasil ficou evidente quando o serviço praticado por elas foi considerada essencial durante a pandemia de Covid-19, como no Rio Grande do Sul. 

“O trabalho doméstico, apesar de ter uma importância muito grande na sociedade, não é uma atividade essencial, só que a sociedade, que sempre negou esse reconhecimento ao trabalho doméstico, nesse momento de quarentena passou a achar essencial. Entendemos que a trabalhadora que cuida de uma criança, de uma pessoa idosa com necessidades especiais e cujo empregador exerce uma atividade essencial, ela torna-se essencial. Salve o contrário, não tem motivo para a trabalhadora doméstica neste momento de pandemia se expor, sair todos os dias de casa. O problema é que isso é um desafio para a classe média que durante a vida toda se habituou a ter uma trabalhadora doméstica em casa. A questão da servidão fala muito nesse momento”, realçou Luiza Batista, presidente da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), em entrevista à Gabriela Meireles, voluntária da Periferia Viva, para o programa de rádio Saúde com Ciência.

Em perspectiva semelhante, Renata ressaltou, para o programa produzido pelo Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, que a exploração ganhou novos contornos com a retomada dos serviços em Belo Horizonte.

“Como a gente está com um número de contratação de diárias muito baixo, algumas pessoas acham que vão poder pagar qualquer valor, porque a diarista está precisando muito realizar o serviço, com a justificativa de que está ajudando a pessoa. Se valorizem, não vale a pena se arriscar por um valor que não vai compensar o seu trabalho”.

É nessa luta por valorização e respeito que Simone, viúva e mãe de três filhas, busca superar os desafios com o trabalho. Em depoimento para a campanha, revelou que é por causa dos serviços de faxina que consegue dignidade para sustentar a filha de dez anos.

“Hoje faço o que aprendi a fazer melhor. Limpar, arrumar, cozinhar. Aprendi a amar isso e fazer com capricho. Faço com muito orgulho. Hoje sou forte e posso escolher com quem trabalhar. E posso dizer, com certeza, que trabalho com pessoas excepcionais, que me respeitam e me tratam como se deve tratar qualquer outro ser humano: com respeito.”

Simone, uma das integrantes do coletivo Tereza de Benguela

Apadrinhe uma de nós 

A campanha, realizada com o apoio da frente de assessoria de comunicação do Periferia Viva, é divulgada pelas redes sociais do coletivo e conta com o depoimento e ilustrações de cada uma das seis integrantes que serão apadrinhadas. Após o preenchimento do questionário, o Tereza entra em contato com o possível apadrinhador.

Para apadrinhar uma das trabalhadoras do coletivo, clique aqui

Para contratar os serviços das integrantes do Tereza de Benguela, entre em contato pelo WhatsApp: (31) 99579-7483 ou pelo e-mail coletivoterezadebenguela@gmail.com. 

Para participar da “Apadrinhe uma de nós”,  acesse as redes sociais do Tereza: 

Facebook: @terezadebenguelacoletivo 

Instagram: @coletivoterezadebenguela

Texto do voluntário Ives Teixeira Souza 


Últimas do instagram

The access_token provided is invalid.