Cartilha sobre fake e verdades sobre o coronavírus

Elaborada por trabalhadoras do sexo que integram o Projeto MINA, a cartilha traz informações importantes sobre como identificar e não disseminar notícias falsas, tão comuns nos tempos atuais.

  • Data: 12 de agosto de 2020
  • Categoria(s): Compartilhar para multiplicar

O Projeto Mina, realizado desde 2018 pela Escola de Ativismo, neste ano iniciou a Jornada Izadora, um processo de aprendizagem em que nove grupos formados por trabalhadoras do sexo, cis, trans e travestis, executam projetos e ações de acordo com o tema escolhido por elas mesmas. O grupo “Educação e Cultura”, diante das consequências geradas pela pandemia do novo coronavírus, identificou que as trabalhadoras tinham dificuldades ao usar a internet e as mídias digitais, ficando suscetíveis a golpes e à crença em notícias falsas, as famosas fake news.

Diante desse cenário, o grupo vislumbrou a ideia de criar uma cartilha, cujo objetivo principal é explicar de forma didática o que são as fake news, quais são as formas de identificá-las e de se prevenir para não divulgar ou acreditar nelas, além de explicar como ter cuidados com dados pessoais e o que fazer em caso de compartilhamento de alguma fake.

“Nós vimos que com essa pandemia começou a rodar muita fake news, muita informação desencontrada, deixando as pessoas muito suscetíveis e vulneráveis a cair em golpes, além de aplicar o terror, espalhando o medo. Aí nós tivemos essa ideia porque estávamos vivenciando isso dentro da nossa própria família, dentro das redes que estávamos participando e dos grupos”, afirma Taís Leão, representante do coletivo de trabalhadoras do sexo Clã das Lobas e uma das integrantes do grupo idealizador da cartilha.

Taís também ressalta que a ideia de criar uma cartilha impressa veio da ciência de que algumas trabalhadoras não tinham acesso adequado à internet, às mídias digitais, e que ainda estavam trabalhando em campo. Inicialmente, o grupo Educação e Cultura desenvolveu ações por meio de lives, mas viu que era preciso ir além.

“No início nosso trabalho ficou muito concentrado em lives, mas nós sabemos que têm profissionais que não podem parar, que são arrimo de família e não adiantava ficar na hipocrisia de fazer uma coisa só virtual. Tivemos que ir para campo, pra atender essas trabalhadoras, passando as informações para elas, entendendo que não são todas que têm acesso a internet, que têm crédito no celular pra assistir a uma live, acompanhar vídeos. Então a cartilha veio com esse propósito, de levar essas informações para as trabalhadoras que estão em campo, principalmente campo de trabalho”, nos disse Taís.

O processo de elaboração da cartilha se deu por meio de rodas de conversa mediadas pela equipe da Associação Imagem Comunitária. Além disso, as integrantes do grupo fizeram pesquisas em sites confiáveis, como os da Prefeitura de Belo Horizonte, Ministério da Saúde e Fiocruz, e “traduziram” o conteúdo para uma linguagem mais acessível e compreensível para as trabalhadoras do sexo. Além disso, a cartilha indica contatos e órgãos competentes aos quais as mulheres podem recorrer em caso de dúvidas.

Afinal, o que são as fake news?

Conversamos um pouquinho com a mestra em comunicação social e pesquisadora do grupo Mobiliza UFMG, Iasminny Cruz, sobre as fake news. Iasminny participou da produção da cartilha.

Segundo ela, as fake News de hoje, como estudadas no campo do risco à opinião pública, têm a intencionalidade de enganar e manipular. “Por que que eu digo ‘essas fake news de hoje’? Porque notícias falsas sempre existiram. Dentro da estrutura de funcionamento de um jornal, de portal de notícia, no dia a dia do trabalho do jornalista, esse profissional não está imune a cometer erros, trocar nomes, mudar datas, ou mesmo, até intencionalmente, modificar aspas e dados. Mas, nesses casos, dentro de uma democracia funcional, a imprensa precisa se deixar à prova do escrutínio público (quer dizer, se você viu que um dado está errado, você pode e deve avisar o jornal, e ele tem o dever de fazer uma retratação daquela notícia). Essa é uma notícia falsa ‘normal’, vamos dizer assim. O seu risco, dentro de uma democracia, é controlado, nós públicos podemos agir com vigilância e tentar resguardar a verdade concreta”, nos explica a pesquisadora.

No caso das fake news de hoje esse fenômeno escapou do simples erro e tem algumas características já bem definidas, como nos enumerou Iasminny:

  • a virtualidade de notícia ~ela imita uma notícia;
  • há intencionalidade de enganação;
  • elas são construídas retoricamente para enganar ~verbos apelativos, imprecisos, tendenciosos;
  • são verificavelmente falsas;
  • e geram a desqualificação e desconstrução da estrutura e credibilidade da imprensa (*risco à democracia).

Além disso, essas fake news, como outros fenômenos como os boatos, têm algumas outras características, e podem acabar sendo:

  • vagas;
  • alarmistas;
  • conter erros gramaticais;
  • as fontes (pessoas às quais se buscam entrevistar para coletar informações para uma matéria) ou não são citadas, podem ser inventadas, ou podem, ainda, ser reais, mas com falas manipuladas, distorcidas ou sequestrada do seu contexto verdadeiro;
  • e, uma das coisas mais importantes, elas apelam para as emoções, para nossas paixões, amores, pra quem a gente torce, pra quem a gente quer ver ganhar, pra quem a gente quer ver perder.

O Projeto MINA

Desde outubro de 2018, a Escola de Ativismo desenvolve o Projeto MINA, uma proposta de longo prazo que visa apoiar ações coletivas para a promoção da dignidade e visibilidade das reivindicações das trabalhadoras do sexo cisgêneras, transexuais e travestis de Belo Horizonte e Região Metropolitana. O trabalho do projeto envolve construções e ofertas de processos de aprendizagem, oficinas e materiais de forma conjunta com as trabalhadoras. Para tanto, utiliza metodologias interativas, criativas e reflexivas que estimulam o trabalho em equipe, o engajamento, a colaboração, a solidariedade e fortalecimento comunitário.

Segundo a mentora do grupo “Educação e Cultura”, Karina Gea, “é central para o trabalho proporcionar apoios e orientações constantes às participantes para fortalecer uma cultura de inclusão, solidariedade, autoconscientização e abertura. Consequentemente, estimulamos os trabalhos das ativistas e coletivos, formalizados ou não, ao mesmo tempo em que encorajamos o surgimento de novas vozes na comunidade de profissionais do sexo”.

As atividades levaram a novas interações, promovendo parcerias e fortalecimento das conexões entre as trabalhadoras do sexo e diferentes agentes de BH e Região Metropolitana (ONGs, governo estadual e municipais), que geraram maior visibilidade e incidência política.

“Analisamos que o Projeto MINA fortalece as ativistas emergentes, que são mulheres cisgêneras, transexuais e travestis que se encontram sob alta vulnerabilidade e estimula, aos poucos, a substituição de um senso de luta pela sobrevivência por um senso de agência e transformação”, afirma Karina.

Em março de 2020, o Projeto iniciou a Jornada Izadora, um processo de aprendizagem com que carrega o nome de uma das participantes que foi assassinada durante o projeto. A escolha de renomear foi a forma que encontraram para fazer uma homenagem a Izadora, uma mulher trans que sempre ensinou muito sobre empatia, força e amor. Na Jornada, foram estabelecidos múltiplos pontos temáticos para execução de projetos e ações, como dito anteriormente. Com a adaptação do processo para os meios online, as participantes perceberam as dificuldades de usar a internet, identificar fake news e golpes. Com isso, o grupo composto por cinco trabalhadoras sexuais (três trans e duas cis) está pesquisando e conversando sobre esses temas, produzindo materiais formativos, com linguagem própria, que serão distribuídos no formato de vídeos e materiais gráficos.

Matéria escrita pela voluntária Laura Pimenta


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