COLETIVO TEREZA DE BENGUELA É RESISTÊNCIA PARA FAXINEIRAS DE BELO HORIZONTE

Contribuições podem ser feitas por meio de vaquinha online, doações de produtos e contratação de faxinas; informalidade das trabalhadoras deve aumentar após a pandemia, cursos de aprendizagem são aposta para novo momento

  • Data: 2 de junho de 2020
  • Categoria(s): Compartilhar para multiplicar

Valorizar mulheres que trabalham no mercado informal de faxinas em Belo Horizonte e Região Metropolitana: foi com esse objetivo que surgiu, há alguns anos, o Coletivo de Faxineiras Tereza de Benguela. Além de intermediar a relação entre diaristas e contratantes, o coletivo une as faxineiras para aprenderem sobre economia doméstica, oferecer apoio psicológico e jurídico. E, agora, estão juntos para resistir às consequências do isolamento social provocado pela pandemia da Covid-19.

As vulnerabilidades das trabalhadoras domésticas no Brasil ficaram ainda mais escancaradas com a pandemia. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva, ainda em abril, 39% dos contratantes de diaristas abriram mão do serviço, sem pagar as diárias. Esse percentual sobe para 45% se analisado apenas contratantes das classes A e B. A perda de renda é preocupante, assim como a continuidade do trabalho em tempos de distanciamento social – quase 40% das mensalistas continuaram trabalhando normalmente.

“Buscamos o fortalecimento dessas mulheres para que possam evitar e dizer não em situações de exploração. E, assim, mudar um quadro social em que as pessoas acreditam que quem realiza faxinas não deu certo na vida.”

 Renata Aline Oliveira, coordenadora do coletivo

AJUDA DURANTE A PANDEMIA

Em março, assim que começou o isolamento social na capital mineira, o coletivo criou um voucher de faxina, com 10% de desconto no valor do serviço. Com o pagamento adiantado, as faxineiras podem sobreviver e não colocar em risco as suas vidas e as dos contratantes. 

Após receberem muitos pedidos de auxílio de faxineiras da Região Metropolitana de Belo Horizonte para a aquisição de gás de cozinha, fraldas e leite, o coletivo começou uma campanha para a compra e entrega desses itens. Mais de 100 cestas básicas, frutas e verduras foram distribuídas. Tudo para que as faxineiras mantivessem o isolamento social e protegessem suas famílias.

Mas a ajuda não foi o suficiente. As doações e a vaquinha online ainda não atingiram a meta desejada. As atividades de faxina foram retomadas com o início da flexibilização do distanciamento social em Belo Horizonte. Como medidas de proteção adotadas, estão o uso de máscaras por todos na residência, disponibilização de álcool 70% e armazenamento de objetos pessoais da faxineira em apenas um lugar ao longo da faxina. 

O TRABALHO DOMÉSTICO NO BRASIL

Estudo publicado no ano passado pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), vinculado ao Ministério da Economia, mostrou que as trabalhadoras domésticas são o segundo maior grupo profissional de mulheres do país. Em 2018, as diaristas correspondiam a 44% do total, o equivalente a 2,5 milhões de mulheres. 

A informalidade persiste entre as trabalhadoras domésticas. Em 2018, menos de 30% tinham carteira assinada, com rendimento médio correspondendo a 92% do salário mínimo. Um trabalho “que ocupa mulheres, em sua maioria negras, em espaços domésticos, realizando atividades consideradas ‘naturalmente’ femininas, reúne todos os elementos para ser desvalorizado numa sociedade como a brasileira”, estruturada pelo racismo e pela liderança masculina, afirma o estudo. 

A consequência do atual momento pode ser a consolidação do que as pesquisas já indicavam. Uma ampliação da informalidade, em um movimento reverso do lento processo de formalização existente até então. Por isso a importância de ações como o Tereza de Benguela, que lutam pela valorização da força de trabalho feminina. Como exemplo, o coletivo anunciou no último mês uma parceria com o Clube de Blogueiras Negras, que vai oferecer para as integrantes do coletivo oficinas de gestão financeira, direitos e deveres das diaristas. 

QUEM FOI TEREZA DE BENGUELA?

Tereza liderou, após a morte de seu marido, no século XVIII, o maior quilombo da região onde hoje é o estado do Mato Grosso, perto da fronteira com a Bolívia. O Quilombo de Quariterê, onde era conhecida como Rainha Tereza, abrigava mais de 100 pessoas, entre africanos e indígenas. A administração do quilombo era realizada por uma espécie de parlamento. O que era decidido ali tinha que ser obedecido com muita disciplina, o que fez com que a resistência ganhasse força econômica e militar – a  fartura do quilombo era maior que a vila mais próxima na região aurífera de Mato Grosso.

Após várias ofensivas das forças oficiais contra o quilombo, Tereza amuou e, logo depois, morreu. Para homenageá-la, em 2014, a presidenta Dilma Rousseff instituiu o dia 25 de julho como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. 

APOIE O COLETIVO

A vaquinha online do Coletivo de Faxinas Tereza de Benguela continua aberta para que as faxineiras fiquem em isolamento social. Colabore – valor mínimo de R$25,00 – para que a meta seja atingida. Clique aqui.

Se você deseja contratar os serviços de faxina ou doar dinheiro, produtos alimentícios, de limpeza e de higiene pessoal entre em contato pelo WhatsApp: (31) 99579-7483. 

Para saber sobre as iniciativas do coletivo acesse as redes sociais do Tereza: 

Facebook: @terezadebenguelacoletivo 

Instagram: @coletivoterezadebenguela

Texto do voluntário Ives Teixeira Souza 


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