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Conheça o trabalho de atendimento psicossocial da Laço, que atende pacientes do Aglomerado da Serra e é parceira do Periferia Viva

  • Data: 3 de setembro de 2020
  • Categoria(s): Compartilhar para multiplicar

No dia 4 de agosto foi realizada mais uma entrevista coletiva promovida pelo Comunicação Solidária Covid-19, projeto de extensão da UFMG em parceria com o Periferia Viva. A entrevistada da vez foi a Dra. Inês Julião, psiquiatra e diretora da ONG Laço – Associação de Apoio Social. 

Na ocasião, os voluntários, a equipe da AIC e os professores do projeto tiveram a oportunidade de conversar com a médica sobre o trabalho da ONG com os pacientes psiquiátricos e também sobre a história da instituição.

A conversa começou com um depoimento da Inês sobre a história da Laço, que teve seu início nos centros de saúde da prefeitura de Belo Horizonte, onde ela atuou por cinco anos. Durante esse período, ela constatou que o tratamento psiquiátrico nos moldes em que ele se dava naquele momento com pacientes majoritariamente moradores de periferias não contribuía de fato para uma evolução positiva dos quadros. Mesmo com a medicação prescrita e a presença nas consultas, a médica observou que o modelo adotado fazia com que os pacientes permanecessem em uma posição vitimizada, como relata: 

“Em função da vulnerabilidade social, os pacientes, muitas vezes, não conseguiam sair de uma posição vitimizada e com frequência faziam uso do benefício que recebiam do governo pela doença como um modo apenas de sobrevivência. Assim, não podiam investir na melhora, uma vez que, se melhorassem, perderiam o benefício. (…) Fazendo assim, eu me sentia agente de segregação (…)”

Durante os atendimentos nos centros de saúde, a médica notou que grande parte dos pacientes relacionavam seu sofrimento mental a algum tipo de exclusão social. A maior parte deles  eram psicóticos, o que por si só fazia com que  fossem alvo de discriminação. Porém, no caso daqueles atendidos por ela nas periferias, as segregações estruturais que acometem sujeitos favelados, pobres e pretos aumentava ainda mais a sensação de não pertencimento e exclusão social. 

Foi a partir da insatisfação com o cenário posto que surgiram os embriões da Laço.  Durante a entrevista ficou claro para os que ali estavam que o nome da ONG não era um acaso, mas uma representação simbólica perfeita para dizer sobre os modos de fazer da ONG. 

O começo da transformação nos atendimentos se baseou justamente a partir das ligações e dos laços estabelecidos entre os pacientes. A  proposta era simples e foi feita ainda dentro dos centros de saúde: a médica incentivou a criação de grupos de discussão, para que os pacientes falassem sobre seus problemas, tentando achar problemas comuns e soluções encontradas por eles mesmos. A ideia era que assim os pacientes saíssem dessa posição de vítima e encontrassem soluções sem uma dependência restrita às medicações.

 “Meu propósito era tratar o sofrimento por meio da palavra. Eles queriam a medicação e o atestado, mas não queriam falar sobre o sofrimento.

Dra. Inês Julião

A médica conta que no começo não foi fácil. Os pacientes não estavam acostumados a se colocar e a falarem sobre as suas questões uns com os outros, mas aos poucos os primeiros frutos do incentivo começaram a surgir.  Inês conta que a troca acontecia principalmente a partir do compartilhamento de conhecimentos, histórias e até mesmo objetivos. Um exemplo citado por ela foi o caso de uma paciente que aprendeu a bordar com uma colega e, assim que começou a praticar, teve a iniciativa de ensinar outras jovens da comunidade que eram dependentes químicas. O grupo cresceu, chegou a ter mais de 40 pessoas  e a produção chegou a ser exportada para outros países.

“Eu sempre pensei que não era ninguém, eu nunca fui alguém, mas agora eu sei. Eu sou. As coisas que faço no artesanato, antes de terminar eu já vendi”. 

Carmelita – bordadeira e paciente da Laço

O caso do grupo de bordado não foi um exemplo isolado. Pacientes e não pacientes começaram a se organizar para produzirem e trocarem conhecimentos. Surgiram então várias oficinas, muitas delas ministradas por aqueles que antes iam ao centro médico apenas para buscar suas receitas. 

Durante a fala da médica, um clima de encanto tomou conta da conversa. Se hoje ainda existem vários estigmas e barreiras no que tange a pauta da saúde mental, ouvir sobre as práticas adotadas pela médica no final dos anos 1990 no aglomerado da Serra foi surpreendente. O que se fazia ali era uma revolução tão grande que o centro de saúde ficou pequeno. 

As atividades e os encontros começaram então a acontecer no Parque das Mangabeiras e, mais tarde, com a necessidade de institucionalização para estabelecer parcerias, em uma sede também dentro do parque. De 2002, quando a Laço foi oficialmente criada, até hoje ela continua sendo ponte e caminho para os que passam por lá. Na ONG as pessoas em tratamento são, além de beneficiadas, colaboradoras; e a moeda de troca pelo tratamento, como ensinaram os próprios pacientes, é a própria troca. Às vezes de poesias, músicas, reflexões, notícias para as oficinas de rádio… mas sempre troca!

“Poder ouvir uma médica psiquiatra como a Dra Inês, que desenvolve um trabalho psicossocial humanizado e colaborativo na Laço, atento àqueles que estão em maior situação de vulnerabilidade é inspirador. Ainda temos no Brasil uma prática muito ligada à uma tradição psiquiátrica dos manicômios, da internação compulsória. Conhecer profissionais que quebram esse paradigma, que valorizam os sujeitos e suas particularidades aquece o coração […]. Temos muito a pensar sobre isso e a Laço é uma grande parceira nesse sentido.”

Laura Pimenta – Relações Públicas voluntária do Periferia Viva 

A pandemia

Com a chegada da Covid-19 e a necessidade de adotar isolamento social, as atividades presenciais da Laço foram suspensas. Os atendimentos psicológicos e psiquiátricos, que hoje contam com 21 profissionais de saúde,  estão sendo realizados através de chamadas telefônicas. Já as oficinas, parte importante do trabalho desenvolvido, precisaram ser interrompidas. 

Inês aponta que a pandemia trouxe para a Laço a necessidade de se reinventar. O grupo tem encontrado nas reuniões clínicas semanais por videochamada uma alternativa para continuar os processos de construção coletiva entre os profissionais. 

Além dos pacientes que já estavam em tratamento, hoje é realizado acolhimento gratuito e remoto de pessoas indicadas pela rede do Periferia Viva. 

Um futuro enlaçado? 

Durante a conversa com a psiquiatra, muitas das perguntas feitas pelos participantes dizia sobre a importância da sociedade pensar criticamente a saúde mental. De acordo com a revista Cadernos de Saúde Pública, cerca de 30% dos adultos de todo o mundo atendem aos critérios de diagnóstico para qualquer transtorno mental.

Nesse cenário e depois da conversa esperançosa com a Inês, ficamos felizes em saber que as próximas gerações de profissionais de saúde mental de Belo Horizonte têm a oportunidade de conhecer de perto as práticas da ONG. Isso porque estudantes de medicina e psicologia de algumas faculdades da capital mineira cursam um semestre de estágio por lá. 

Ainda pensando o futuro da saúde mental, agora do outro lado, Inês contou sobre uma mudança de públicos atendidos na Laço que vem acontecendo desde 2018. Agora, grande parte dos atendidos são crianças e adolescentes. É a partir das escolas, principalmente da iniciativa de professores e diretores, que o trabalho começa. 

A Laço realiza oficinas de música, contação de história, culinária e fotografia em escolas da rede pública de Belo Horizonte. Depois, separadamente, os psicólogos fazem o acolhimento individual com os alunos que precisam de uma escuta individual. 

Seria possível gastar horas, ou páginas, falando sobre o trabalho neste oásis dentro do Parque das Mangabeiras. Por aqui, finalizamos com muito orgulho e nos sentindo privilegiados por de ter a Laço como parceira da Rede do Periferia Viva e deixamos para você, nosso leitor, um poema escrito por uma paciente e recitado pela Inês durante a entrevista coletiva:

No êxodo nos encontramos
Não por acaso
Mas por sentido de alcance
Por ventura de nossa transformação
Mudança objetiva
Conclusões irmanadas desta nossa existência
Trabalho de reconstituição
De cada época nossa
Antes da destruição
Possivelmente evitável

Adriana  Álvares , paciente e colaboradora da Laço / 2010

Mais sobre a Laço:

A Laço é uma organização não governamental com foco no atendimento, socialização e inclusão de pacientes da saúde mental do Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte. A ONG acompanha aproximadamente 600 pessoas, entre pacientes que necessitam de apoio clínico-psicológico, seus familiares e pessoas da comunidade. Para este público, oferece oficinas de rádio, histórias, música, teatro, bordado, crochê,arte, literatura, jardinagem e informática.

Site: https://lacoassociacao.wordpress.com/

Facebook: https://pt-br.facebook.com/LacoAssociacao/

Instagram: https://www.instagram.com/laco_bh/

Para acessar na íntegra a entrevista coletiva, ouça o podcast produzido pelo aluno Pedro Mamede:

*As fotos que ilustram essa matéria foram retiradas do Instagram da Laço e feitas antes da pandemia.

Matéria escrita por Arthur Santana e Nathália Vargens


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