Entre tecidos e afetos constrói-se uma Periferia Viva

Dona Darci costura roupas para bebês, mas não pôde finalizá-las; dona Maria da Consolação, da Fala bem Morro, fez dos tecidos, pijaminhas; mães do Morro das Pedras e outros territórios receberam os vestuários infantis

  • Data: 20 de outubro de 2020
  • Categoria(s): Tá dando certo

No poema Triste Horizonte, escrito em 1976, Carlos Drummond de Andrade disse que queria esquecer Belo Horizonte. Não queria voltar para ver o que não merecia ser visto, em razão de parecer impossível voltar àquela BH “provinciana saudável” das primeiras décadas do século. 

Mesmo cem anos depois da Belo Horizonte da juventude do poeta – quando estudava no Colégio Arnaldo e na Escola de Odontologia e Farmácia – ainda há na cidade reservas de uma alquimia saudável, até mesmo interiorana, caso do entrelaçamento dos afetos que compõem a rede Periferia Viva. 

Alquimia dos afetos 

Viabilizadora de doações. É assim que Mariana Burger se define. Por meio de sua tia, ela conheceu Darci Guasch, de 80 anos, que há décadas costura roupas para bebês. Mariana passou a buscar as roupas feitas pela dona Darci e a entregá-las para abrigos de BH. 

“Há um mês, Dona Darci sofreu um acidente vascular encefálico (AVC) quando estava com algumas roupas prontas, outras cortadas. E pediu que eu pegasse, além das roupas terminadas, os tecidos para que alguma ONG pudesse terminar a costura”, conta Mariana, que reconheceu na rede Periferia Viva uma oportunidade para cumprir o pedido. 

“Por enquanto, só estou cortando os tecidos, porque não estou dando conta de costurar muito. Fiz um pouco esses dias, mas não é muito”, comenta a aposentada, que começou a costurar aos doze anos de idade, quando entrou para a aula de corte e costura. Mais tarde, após cursos específicos sobre o fazer roupas para bebês, Darci começou a costurar os enxovais para doá-los às mães. 

“Quando eu dirigia, eu saía de carro por Belo Horizonte com vários enxovais. A pé, eu levava um de cada dos três modelos que fazia. Se encontrasse alguma mãe grávida na rua, oferecia o kit. As mamães falavam que era um enxoval completo que eu dava para os bebês. Eu colocava um cobertor, uma toalha de banho e outra para boca, uma manta de lã, dois paletós, dois pagãozinhos, dois pares de sapatos, duas toucas, dois sabonetes, chupeta, seis fraldas descartáveis. Mas atualmente só faço cueiro e paletozinho”, revela dona Darci. 

Após os pedidos de dona Darci à Mariana, que entrou em contato com a Periferia Viva, nossa rede de afetos chegou ao Morro das Pedras, mais precisamente à iniciativa Fala bem Morro e às mãos de dona Maria da Consolação Ribeiro, mãe de Natália Couto, uma das lideranças da organização.

A aposentada, de 64 anos, conta que apesar de não ter a costura como ofício, a oportunidade de praticá-lo surgiu com a pandemia de Covid-19, ao fazer máscaras para a distribuição na comunidade pela Fala bem Morro. 

“Logo depois, fiz os pijaminhas, aproveitando os tecidos que recebemos. Deu certo, fiquei muito feliz. Espero que as pessoas que receberam também tenham ficado felizes assim como eu. E que outras tantas possam se interessar pela costura assim como aconteceu comigo. Agora, estou tendo a oportunidade de confeccionar mais roupinhas”, detalha Maria da Consolação. 

Natália acrescenta que as outras roupas costuradas pela mãe também vão compor um kit de roupas para bebês. “Nós já doamos algumas roupas recebidas da Periferia Viva e outras vão compor os enxovais que estamos montando com outros itens doados, como sapatinho de crochê, bola mamãe, que vamos sortear entre as grávidas, já que são muitas e não há para todas”, detalha.

A BH da Periferia Viva

Neste tempo pandêmico, os espaços digitais não são apenas uma ferramenta de comunicação, mas o principal espaço de mobilização e organização política das ações de solidariedade. Foi o que afirmou a professora e pesquisadora Myria Georgiou, do departamento de Media e Communications da Escola de Economia e Ciência Política de Londres, em conferência na UFMG. Um desses exemplos de espaços digitais é a Periferia Viva. 

Esses espaços, de acordo com Georgiou, permitem o surgimento de novos públicos urbanos, a partir das interações digitais que reúnem desconhecidos em torno de um objetivo comum. Ao mesmo tempo que retornam o público a um nível mais próximo, o da vizinhança, feito no tempo de Drummond. Como é o caso do público da Fala bem Morro, que distribuirá os kits de roupas infantis para as mães dos territórios do Morro das Pedras e de outros ao redor. 

A professora reforça que os espaços digitais obtém sucesso durante a pandemia por se apoiarem em ações realizadas anteriormente, como comunicar, organizar, criar conexões com pessoas que são próximas e geram identificação. Mas ela alerta para as limitações dessa forma de atuação em cidades como Belo Horizonte. 

Quem está incluso no projeto de solidariedade digital e quem está excluído? O quanto a solidariedade digital é eficaz quando se trata de cidades que já são desiguais?

Myria Georgiou, professora titular e diretora de pesquisa do departamento de Media e Communications da London School of Economics and Political Science (LSE). 

Não é sem motivo, mas para diminuir as desigualdades da Belo Horizonte atual, que a Periferia Viva funciona para além de uma plataforma, e sim como uma rede cuja presença do corpo também é importante. São os corpos da dona Darci e da dona Maria da Consolação quem costuram, da Mariana que entrega os tecidos, das mães quem sentem o pulsar da periferia da cidade. 

São esses corpos que lutam, a todo instante, para romper as desigualdades em uma rede na qual são tecidos afetos que buscam conformar uma noção de cidade capaz de deixar Drummond ansioso para estar na BH da Periferia Viva. 

Afinal, a rede atravessa a cada dia territórios e sujeitos outros, com o objetivo de romper a fronteira invisível que demarca os públicos da cidade em classe, etnia e tantas outras formas de divisão. 

Texto do voluntário Ives Teixeira Souza 


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