EU PASSO PRETO, de Natana Coelho

Coletivos, Coletivas e ativistas periféricos. Um retrato da vivência periférica num pré, pós e durante a pandemia. Em versos, estrofes, parágrafos. Gritos. Sussurros. Um afago. Um soco. Um comentário. Um desabafo. Artistas da Rede do Fórum das Juventudes vêm compartilhar as suas realidades no blog de notícias do Periferia Viva!

  • Data: 16 de setembro de 2020
  • Categoria(s): Pandemia Periférica

Na coluna Pandemia Periférica dessa semana, recebemos a arte da Natana Coelho, poeta de Betim, uma das autoras do livro Ócios no Ofício, ativista autônoma do Fórum das Juventudes da Grande BH.

Natana tem 26 anos, é poeta marginal, educadora social, psicóloga, capoeirista, umbandista, congadeira, 50% da roça, 50% da babilônia mesopotâmica, como ela se descreve.

Sua trajetória com a poesia começou bem cedo. Aos nove anos ela dizia que queria ser escritora. Quando começou a ler, tomou gosto pela leitura e nas asas que ela nos empresta. Ao aprender a escrever, fazia poesias para a professora da escola. Mais tarde, conheceu a poesia que mora na rua através de batalhas de RAP e, depois, através de um movimento chamado “Sarau de Quinta”, realizado no município de Betim há cerca de sete anos.  Envolveu-se com esse movimento, que teve o nome alterado para “Sarau’Sarau”. Foi um caminho sem volta.

Natana oficializou a união com a escrita e com a arte de rua. Desde então, vem trabalhando com a fala e com gente, seja com a psicologia, com a poesia, com o teatro e com demais ferramentas de processos de construção coletiva. “Eu acredito na palavra, porque palavra é voz, e a voz é existência autenticada. Poesia é voz de dentro, é vós de fora, e nós no centro”, nos disse Natana.

EU PASSO PRETO

Eu passo preto.

Tenho passado os dias preso

nos labirintos do pensamento.

Sonhando acordado com o gosto do vento

que ficou de lembrança de um sonho rotineiro.

Eu passo preto

passando meu tempo pausado

pousado no meio do puleiro

Ao mesmo passo em que observo atento

as coisas passarem pra além das fronteiras (ou vigas?) do meu teto.

Eu não saberia te dizer exatamente aonde eu moro,

Mas posso te contar sobre o que eu canto.


Canto de costume, canto de ciúme

canto de irritação.

De alegria,  não.

Mas quase sempre de nostalgia.

Cada doido com sua mania.

Eu passo preto

sinto um aperto peito pelo mau hábito

de cantar durante todo o dia

sobre a cor e o sabor da monotonia.

Eu passo preto

passei a conviver com a dor constate no peito

mas nunca me acostumo com o cansaço.

E tenho passado meus dias cansado e instigado

com a promessa do amanhã,

pelas liberdades que eu não experimentei, logo eu, o rei…

Sempre me disseram que eu sou o rei do pedaço,

o rei do espaço –

menos de meio metro quadrado.

Não sei se eu acho isso trágico

não sei se eu acho hilário, só sei que eu passo.

Mas nunca bato

as minhas asas.

Asas?

Por que motivos eu falaria sobre as minhas asas?

As asas não estão em prática,

nunca estiveram em pauta,

eu ousaria inclusive dizer que sempre estiveram em falta.

Prefiro falar das músicas calmas,

daquelas que acalmam minha a alma.

Que de tão calmo, chego a ficar quieto.

Me esqueço de preocupar com todo o resto

(a minha melancolia,

e a rotina de desafetos).

Eu, passo preto

nunca passo perto

de experimentar um pedaço sequer de ar.

Ai de mim se eu querer…

Ai de mim se lembrar que no fundo eu sei bem

como é que se faz essa coisa de voar.

Saber sem poder

acaba se transformando em sofrer.

E é por isso que eu só canto.

Eu, passo preto

passo preso no meu canto.

Natana Coelho

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