Mãos que fazem, mãos que lutam, mãos que se apoiam

O Periferia Viva é feito por muitas mãos. São voluntários e voluntárias comprometidos com os resultados e alcance do projeto, pessoas solidárias que têm apoiado diversas iniciativas periféricas, equipes e lideranças comunitárias dispostas a arregaçar as mangas e colaborar

  • Data: 22 de junho de 2020
  • Categoria(s): Tá dando certo

Dispor-se a ajudar, compadecer-se com a necessidade do outro. A ação solidária, como nos diz Augusto de Franco, em seu livro Ação local – a nova política da contemporaneidade (1995), explica-se “pela hipótese da existência de uma consciência moral que apreende o outro (que sofre) como ‘um-outro-eu-mesmo’, e que induz ao reconhecimento de que ‘eu sou responsável’ pela solução dos carecimentos que acarretam sofrimentos aos meus semelhantes”. Estas são algumas características das pessoas solidárias, que têm feito a diferença em tempos de pandemia. O Periferia Viva está cheio delas. São 25 voluntários e voluntárias, mais as equipes institucionais da AIC, Mobiliza, Laço e do Fórum das Juventudes da Grande BH, além das lideranças comunitárias das mais de 90 iniciativas inscritas na rede, e ainda muitas outras pessoas que realizam doações das mais diversas formas.

Não há financiadores para o projeto até o momento. Ele se dá pelo investimento pessoal das instituições e equipes envolvidas. Para alcançar os resultados ousados e desafiadores a que o projeto se propõe, não há outra alternativa a não ser a articulação de diversas frentes, o comprometimento dos profissionais e a abertura para novas possibilidades. Quem faz essa rede? Conversamos com algumas pessoas que são Periferia Viva.

A estrutura do trabalho

O Periferia Viva se articula em quatro frentes: ações de articulação, plataforma, comunicação institucional e assessoria de comunicação aos grupos. Para operacionalizar essas frentes, muitas são as mãos que fazem o Periferia Viva. Dentre elas, conversamos com a coordenadora da frente de escuta e ações de articulação do projeto, Nathália Freitas Vargens, estagiária na AIC, que nos contou um pouquinho sobre os desafios de seu trabalho.

“Os maiores desafios até agora têm sido lidar com todos esses relacionamentos e fluxos à distância e conseguir seguir em frente com o trabalho diante de realidades sofridas e de extrema vulnerabilidade. A riqueza do trabalho que estamos fazendo com certeza vem da escuta constante e aprofundada, mas é preciso estarmos sempre atentos também à saúde mental dos envolvidos no processo”.

Para além dos desafios, é possível identificar as potencialidades:

“Sobre as oportunidades, definitivamente a possibilidade de formar uma rede enorme como a que criamos é algo memorável. A quantidade de grupos cadastrados e voluntários que compõe a rede do Periferia Viva é um retrato da potência que o projeto tem em articular diferentes atores sociais em prol de uma causa. Eu me pego às vezes imaginando todos nós juntos tomando um café no quintal da AIC quando tudo isso acabar”, afirma Nathália.

Você pode conferir os primeiros resultados do Periferia Viva aqui, fruto da dedicação e envolvimento de todas as equipes.

Voluntários em ação

Como já foi destacado, além dos profissionais das instituições realizadoras do projeto, contamos com a colaboração de 25 voluntários, que têm contribuído imensamente para o desenvolvimento dos trabalhos. Conversamos com dois deles, para que pudessem nos contar um pouco como tem sido essa experiência.

Ives Teixeira Souza, jornalista, relações públicas e mestrando em comunicação social na UFMG, conheceu o projeto através de um convite dos professores Márcio Simeone e Daniel Reis. Logo já estava atuando na equipe de produção de conteúdos para a plataforma. “Foi tudo muito rápido. Em menos de 30 minutos eu tinha lido o e-mail do Simeone e participado da primeira reunião!”, afirma.

Ives aponta o quão desafiador é elaborar um texto que mostre as iniciativas como elas de fato são, sem esquecer a necessidade de sensibilizar novas pessoas para as causas defendidas e não pasteurizar os conteúdos, tornando-os homogêneos demais. Ao indagarmos sobre as oportunidade e desafios do trabalho voluntário num projeto das dimensões do Periferia Viva, ele foi enfático:

“É uma grande oportunidade fazer parte de um projeto que vai de encontro ao Brasil atual de ausência, quase total, do Estado Democrático de Direito. Periferia Viva é uma rede que mostra o que esperamos dos brasileiros enquanto sujeitos democráticos. Ao mesmo tempo é uma oportunidade de ter parceiros de trabalhos das mais diversas habilidades e competências, grandes profissionais, professores, todos unidos na mesma causa. O desafio maior acredito que seja consolidar a rede, em um momento futuro, entre as próprias iniciativas”.

Também conversamos com a voluntária Solange Valadares, psicóloga e gestora na Laço desde 2009, fez parte da equipe de escuta e ações de articulação do Periferia e hoje acompanha os atendimentos psicossociais desenvolvidos dentro da rede. Veja como ela se sente:

“Eu me sinto muito honrada de poder contribuir, ainda que pouco. Na experiência como voluntária do Periferia Viva, a gente percebe como as pessoas que estão nas periferias se organizam, são guerreiras, lutam pelos seus direitos e isso me impressiona, me dá vontade de ajudar, e muito, porque são pessoas que têm uma garra e uma força de vida muito grande. Então, o desafio é grande! Às vezes nos sentimos impotentes, diante da amplitude das questões a serem resolvidas, mas eu penso ser um desafio muito importante e nos ajuda a nos tornarmos seres humanos melhores. Continuo trabalhando na perspectiva da frente de saúde mental e, no que depender de mim, estamos juntos”.

Solidariedade que cruzou o oceano

Além das pessoas que executam diretamente as ações, também podemos contar com aquelas que realizam doações, seja em dinheiro, materiais ou alimentos. Fomos encontrar uma doadora muitos especial, que, de Berlim, na Alemanha, contribuiu com três iniciativas do Periferia Viva.

Esther Medina Teixeira é jornalista e estrategista freelancer. É brasileira, mas desde março mora em Berlim. Ela conheceu o Periferia Viva através de amigos que trabalham como voluntários no projeto.

“Achei a iniciativa fantástica! Muito organizada, objetiva e prática. Achei isso muito importante, já que logo no começo da pandemia houve muita demora do governo em se estruturar para oferecer auxílio às famílias e empresários que mais precisavam e ainda precisam. Não só para manter a sua renda, mas para se manter vivo em uma realidade que força essas pessoas a irem para rua, enquanto deveriam se resguardar em casa”, afirma Esther.

A jornalista nos relatou que estava acompanhando a realidade do Brasil frente a pandemia e que ficou bastante angustiada com o desamparo governamental. Ela decidiu, então, apoiar alguma iniciativa e muitas se apresentaram, o que dificultou o processo de escolha. Foi aí que conheceu o Periferia Viva e escolheu as iniciativas para efetuar as doações.

“Não conhecia os projetos que apoiei, mas os escolhi por estarem na região de BH e pelo propósito (um de levar alimentação e higiene e outro de ajudar os pequenos empreendedores/autônomos da periferia). Muitas vezes a gente só pensa em fornecer comida, mas não é só isso que a periferia precisa. Eu fui lendo os projetos e entendendo o que eles estavam precisando e me identifiquei mais com os dois focos, mas se conseguisse ajudava todos”, pontua Esther.

Esther contribuiu diretamente com o MLB – Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas e com a Associação Comunitária de Moradores da Vila Cafezal, além de ter efetuado doações para o Comunidade Viva sem Fome. Para ela, o ato de praticar a solidariedade foi super importante, principalmente nesse momento que pede urgência. “Quis ajudar a periferia, nem que seja um pouco, a se manter viva e forte”, afirma.

A importância da doação

Na outra ponta de atuação do Periferia Viva estão as iniciativas cadastradas e que precisam de apoio. Mais de 90 entidades e coletivos fazem parte da rede do Periferia Viva, e cerca de 30% dessas iniciativas já receberam doações de cestas básicas e outros alimentos, contabilizando um público atendido que passa de 100 mil pessoas.

Para esta matéria, conversamos com a idealizadora de uma das iniciativas que recebeu 150 quilos de alimentos e 60 litros de leite, Miriam Aprigio, da Rede Quilombola de BH e RMBH. Miriam ressaltou a omissão do Estado perante a situação das comunidades pobres e periféricas neste momento de pandemia, afirmando que há uma necropolítica que objetiva exterminar estas populações. Ela pontuou a importância de ter cadastrado a Rede no projeto, agradeceu à AIC por ter aberto as portas e estar colaborando.

“Ter o Periferia Viva como parceiro tem nos ajudado a ter uma nova perspectiva, a ter, especialmente, um outro olhar sobre esta iniciativa voluntária das pessoas de prestar auxílio, uma vez que os quilombos são historicamente invisibilizados. Poder contar com essa ajuda deu até uma nova disposição pra gente continuar correndo atrás, pleiteando, para assegurar o mínimo para nosso povo. Fez toda diferença! Nós que somos periféricos sociais, desde o início da história da colonização do Brasil, temos uma relevância cultural e histórica muito importante. É preciso que tenhamos o mínimo necessário para sobrevivência!”, afirma Miriam.

Participe você também da rede Periferia Viva! Qualquer ajuda é bem-vinda!

Matéria escrita pela voluntária Laura Pimenta


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