Perfil de Luta: Ofélia de Oliveira

Iniciamos com a líder comunitária, Ofélia de Oliveira, nossa nova série denominada “Perfil de Luta”. Contaremos um pouquinho da história de vida das lideranças que batalham nas periferias, tornando-as vivas.

  • Data: 23 de outubro de 2020
  • Categoria(s): Compartilhar para multiplicar

A gente sabe que existem muitas pessoas que estão nos “corres” cotidianos para ajudar ao próximo, para promover e proteger direitos humanos, para tornar esse mundo um pouquinho melhor para as minorias e para os mais vulneráveis, esbanjando empatia e solidariedade. Pessoas que são de luta, que batalham diariamente e que muitas vezes nem são reconhecidas pelo que fazem pelo próximo. É com intuito de contar as histórias dessas pessoas, dar a elas visibilidade e reconhecer a importância de seus trabalhos que criamos a série “Perfil de Luta”.

Para esta primeira edição, conversamos um pouquinho com a diretora da Associação Comunitária Social Cultural Desportiva (ACSCD), Ofélia de Oliveira, que atua nos bairros Jardim América, Nova Suíça, Nova Granada, Gameleira e Salgado Filho.

Em nossa conversa com Ofélia, fizemos algumas perguntinhas para que ela pudesse nos contar um pouquinho sobre como se tornou uma liderança comunitária.

Periferia Viva (PV): Hoje você desenvolve um trabalho na ACSCD. Como você começou a se envolver com esse trabalho? Por quais motivos? Quando começou esse envolvimento?

Ofélia: Eu entrei para a Associação através de uma luta que eu era envolvida aqui no Jardim América, referente à preservação de uma área verde, a última área verde que a gente tem aqui na região, que é o Parque Jardim América. Nós, um grupo de moradores mais ligado à essa questão ambiental, fizemos uma luta para preservar essa área para que ela pudesse se tornar um parque, em que a comunidade pudesse usufruir, preservando o meio ambiente, além de criar uma área de lazer. Só que essa área estava comprometida para a construção de prédios e de um shopping. Com muito esforço, a gente conseguiu preservar uma parte significativa da área. Essa foi uma conquista dos moradores, que contou com o envolvimento da ACSCD e da Igreja. Através disso, eu entrei para a associação, há mais ou menos cinco anos, e hoje sou membro da diretoria.

PV: Como é o seu dia a dia no trabalho no coletivo? Para que, geralmente, as pessoas te procuram?

Ofélia: Na região contemplada pela ACSCD têm grandes aglomerados, como o Morro das Pedras, a Ventosa e o Cercadinho. Enquanto liderança comunitária, quando a gente sabe que tem um problema, a gente vai lá para tentar resolver. Diante disso, me aproximei muito do Morro das Pedras quando ocorreram algumas tentativas de desapropriação. Lá têm alguns lugares que são ocupações, como o Resistência Negra, e houve uma tentativa de desocupação dessa área. Aí nós fomos para lá, para ajudar os moradores a resistirem, pois eles não tinham outro lugar para ir. Depois teve uma outra tentativa de desapropriação, próxima a esse local. Então nós, junto com os moradores, fomos para lá para tentar negociar para onde as pessoas que estavam sendo retiradas iriam. Lá as pessoas também criavam e tratavam de cavalos, fomos negociar para onde iriam levar esses animais, como ia ficar a situação desses carroceiros.

Ofélia ressalta ainda que

“quando vieram as chuvas do princípio deste ano, houve uma devastação total nos aglomerados, principalmente no Morro das Pedras. Aí também começamos a atuar, tanto para socorrer as famílias, para ver para onde iriam, quanto para arrumar alimentos, roupas, dentre outras coisas que foram perdidas nessas enchentes. Começamos também uma organização, uma articulação, no sentido de exigir do poder público uma alocação digna para essas pessoas. Logo em seguida, a gente nem tinha acabado de resolver essa questão das enchentes, aí veio a pandemia de Covid-19. As pessoas já estavam precarizadas em função das enchentes, com a pandemia a situação se agravou”.

PV: Como a pandemia de Covid-19 afetou o trabalho que você desenvolve?

Ofélia: Inicialmente nos perguntamos: “E agora, o que fazer?”. Aí nós pensamos: “Temos que proteger essas pessoas”. Com tanta falta de saneamento, de questão de higiene, de alimentação, se essas pessoas forem contaminadas, se a Covid chegar no morro, vai ser um desastre total. Então, a primeira coisa que nós pensamos foi em fazer máscaras para distribuir, proteger as pessoas. Fizemos também uma campanha de isolamento, para que as pessoas realmente ficassem em casa e tomassem os devidos cuidados de higienização. Aí veio a fome, que foi agravada. Começamos, então, a campanha de arrecadação de alimentos, de distribuição de marmitex. A pandemia não atrapalhou o trabalho, ela só reforçou o que a gente já fazia. E ela escancarou, para quem não sabia, como é a situação de fato da população negra, da população mais pobre, da população que vive em situação de vulnerabilidade nos aglomerados. Revelou a fome para o mundo. Revelou as condições precárias em que as pessoas já viviam. Então ela revelou essa realidade e fez com que nosso trabalho tivesse visibilidade.

PV: Como foi o envolvimento da comunidade e de outras pessoas no enfrentamento dessa situação?

Ofélia: Em um primeiro momento, muitas pessoas foram sensibilizadas e a gente conseguiu muita coisa, muito recurso para suprir as várias demandas que foram aparecendo. As pessoas que precisam vão procurando a gente, né? ‘Tem fulano que é da Associação, tem Ofélia que é da Associação, vamos procurar’… Então surgiam as demandas, necessidades, e as pessoas vinham nos pedir que a gente fosse atrás da rede de solidariedade que a gente sabe que existe. Então, assim, aqui na Região Oeste nós temos a Associação, nós temos a Frente Resistência Oeste, nós temos o CENARAB e no Morro das Pedras, especificamente, têm vários projetos em funcionamento. Fomos tentando articular esses projetos que existiam no sentido de canalizar as forças para que a gente pudesse atender um número maior de pessoas. E, assim, foi uma parceria muito legal, nos tornamos uma referência para essas articulações.

PV: Você se entende enquanto uma liderança comunitária? Por que você acredita nesse trabalho? Como se tornou uma liderança?

Ofélia: Sim. Esse meu trabalho, esse meu envolvimento, vem desde a adolescência, desde a juventude, porque a minha mãe sempre foi uma pessoa solidária, batalhadora, de luta, sempre envolvida nas questões comunitárias. Meu pai também, ele era vicentino. Então eu herdei deles esse compromisso, essa questão da solidariedade, do estar junto, de um socorrer o outro. Eu comecei com grupo de jovens da Igreja, fui catequista, depois entrei para a associação de bairro, depois para o movimento negro, pois vi que quando a pessoa é negra a situação é pior ainda. Ser pobre já não é fácil, tem lá suas dificuldades, mas ser pobre e negro complica ainda mais, a vulnerabilidade é maior. Por isso decidi lutar para enfrentar essas questões.

PV: O que você espera do futuro através das suas lutas?

Ofélia: Quanto a perspectiva de futuro, eu acho que essas redes que a gente tá criando, esses laços de solidariedade, esse comprometimento das várias associações, dos vários projetos, são fundamentais para que a gente consiga a emancipação dessas pessoas, para que elas não fiquem sempre dependentes de oportunistas, de políticos oportunistas, que chegam só na época de explorar o sofrimento das pessoas, mas que não fazem com que essas pessoas saiam dessa condição de vulnerabilidade. Então eu espero que com esse trabalho que as pessoas venham a ter dignidade e que elas possam cobrar pelos seus direitos, não numa situação de pedinte, mas que elas consigam saber quais são seus direitos, cobrar por eles e serem atendidas em suas demandas. Principalmente a juventude negra, espero que a gente consiga que as crianças estejam envolvidas nesses projetos e que nossos jovens não venham a ser mais um alvo para o mundo das drogas, da criminalidade e da violência. Que a gente consiga romper, de fato, com essa história do extermínio da juventude negra. Que nossos jovens consigam frequentar as escolas, estudar, ser bons profissionais, ter uma vida digna com direito a desfrutar todos os recursos da sociedade. Se ele quiser ficar no morro, que ele fique no morro, mas que tenha condições de segurança no morro. E se ele quiser frequentar também o centro, a cidade, que ele possa fazer isso sem ser importunado. Então eu luto e eu creio que nós vamos conseguir isso!

Com essa conversa pudemos conhecer um pouquinho mais sobre essa mulher de luta, negra, ativista, batalhadora, construtora de pontes em um mundo em que as pessoas têm construído cada vez mais muros!

Texto escrito pela voluntária Laura Pimenta


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