Por quais vidas Belo Horizonte chora?

Dados analisados pela UFMG indicam aumento no número de internações de Covid-19 de moradores das periferias da capital; PBH não detalha situação da doença nas vilas e favelas, mas promete abrir 23 centros de referência para enfrentamento à doença nesses territórios

  • Data: 20 de julho de 2020
  • Categoria(s): Quarentena na periferia

Quais são as vidas não consideradas como perda para a sociedade e quais as motivações para lamentar o fim de algumas e de outras não? Foram essas as provocações da filósofa americana Judith Butler, em recente artigo. 

De acordo com ela, a sociedade divide a população entre vidas que devem ser protegidas a qualquer custo e vidas consideradas dispensáveis. “Dependendo do gênero, da raça e da posição econômica que ostentamos na sociedade, podemos sentir se somos mais ou menos choráveis aos olhos dos demais”, explica a pesquisadora. 

Não há nos dados apresentados pela prefeitura sobre o contágio da Covid-19 informações específicas sobre o crescimento da doença nas vilas e favelas. No boletim epidemiológico divulgado pela PBH, por exemplo, os dados do bairro Serra são a soma dos dados dos infectados pela doença nas vilas e favelas do Aglomerado da Serra aos infectados no restante da região, áreas muito desiguais, apesar da proximidade.

Enquanto o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) – que leva em conta o nível de escolaridade, renda e longevidade da população – do bairro Serra é  0,939 (quanto mais próximo de 1, maior o desenvolvimento humano), no Aglomerado da Serra o mesmo índice é 0,665. O que pressupõe ações diferenciadas de combate à pandemia em territórios com maior vulnerabilidade social.

“A desigualdade social desempenha um papel muito importante em nosso modo de abordar a questão de quais vidas merecem ser choradas. Pois se uma vida é considerada carente de valor, se uma vida pode ser destruída ou desaparecer sem deixar rastro ou consequências aparentes, isso significa que essa vida não foi plenamente concebida como viva”, esclarece Butler, no artigo

A aparente invisibilidade da periferia para as políticas públicas de proteção a vida em meio à pandemia demonstra quais são as vidas que realmente importam para a sociedade belo horizontina. De acordo com os médicos, sem as estatísticas epidemiológicas corretas, fica difícil formular ações que, de fato, diminuem a propagação da Covid-19 pelas periferias. 

As vidas indispensáveis para a ciência 

Essa invisibilidade foi rompida pelo Observatório de Saúde Urbana de BH (OSUBH), da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que publicou estudos sobre o avanço nas últimas semanas da pandemia de Covid-19 nas vilas e favelas da cidade. 

 “A realização de testagem populacional por amostragem, especialmente nos locais de grande concentração, permitiria a identificação da infecção, a busca ativa de sintomáticos a partir da atenção primária e a disseminação das medidas preventivas nestes territórios”, afirma as pesquisadoras na terceira edição do boletim informativo sobre a Covid-19 do Observatório. 

De acordo com o estudo, após o vírus se espalhar por toda a cidade, ele se concentra em territórios onde há condições mais rápidas de transmissão e adoecimento, não apenas relacionadas a características individuais, como obesidade, hipertensão e diabetes, mas, principalmente, às condições socioeconômicas desfavoráveis.

É o que comprova o risco de internação em BH por Covid-19 ser 69,2% maior para moradores de territórios com índice de vulnerabilidade em saúde elevado e muito elevado, casos do Alto Vera Cruz, Aglomerado da Serra, Morro das Pedras, Ribeiro de Abreu, Izidora.

O estudo também apresenta territórios com maior densidade de internados, casos da Barragem Santa Lúcia, Nossa Senhora do Rosário, Cabana do Pai Tomás, Pedreira Prado Lopes, Piratininga, MinasCaixa, Novo Aarão Reis e Tupi, além dos citados anteriormente Alto Vera Cruz e Aglomerado da Serra. 

Onde o cuidado é pela manutenção da vida 

Com o objetivo de minimizar os riscos de disseminação na Vila Acaba Mundo, na região centro-sul da capital mineira, território com um dos mais baixos índices de IDHM (0, 617) da cidade, o foco dos moradores é evitar a transmissão do vírus. Laerte Gonçalves, líder comunitário, explica que informação correta e a união entre cada morador são fundamentais. 

Placas nos portões informam sobre potenciais riscos de visitas a pessoas idosas e com doenças crônicas. Faixas também foram instaladas com o objetivo de advertir sobre a responsabilidade de entrar na vila ou sair de casa com os sintomas da doença. “Nós buscamos falar sobre o pessoal que corre mais o risco de ter maiores complicações com a doença, fazendo com que os mais jovens se responsabilizem pelos mais velhos”, explica Laerte. 

As doações recebidas pelos diversos moradores são levadas para a Associação dos Moradores da Vila Acaba Mundo, onde é feita a divisão dos produtos conforme as necessidades das famílias, principalmente aquelas ainda mais vulneráveis a doença.

“O objetivo é não haver desperdício de doação ou acúmulo de doação para alguma família. É um vizinho olhando para o outro. Em casos com suspeita, fazemos o acompanhamento durante o prazo para a cura da doença, levamos alimentos, gás, máscaras, materiais de higiene. remédio”, esclarece o líder comunitário. 

Os moradores lutam para que o vírus não se espalhe pela Acaba Mundo, que conta com mais de 3 mil moradores, com seis registros de Covid-19, de acordo com as informações da Associação de Moradores. Mas Laerte não percebe o mesmo empenho pelo poder público. “Denunciamos aglomerações, churrascos, bares abertos e eles não vieram notificar. Não distribuíram máscaras, álcool gel. Quem atua somos nós, moradores voluntários, ao pedir para as pessoas em situação de risco ou sintomas ficarem em casa”, desabafa. 

A partir da atuação de uma estudante de medicina, que entrou em contato com a Associação a partir da plataforma Periferia Viva, foram realizados na Acaba Mundo, gratuitamente, mais de 200 testes de glicemia e 50 de Covid-19, bem como a aplicação de 150 vacinas contra gripe. De acordo com Laerte, a ação, que contou também com a colaboração de moradores da Vila que são profissionais de saúde, notificou os seis casos de Covid-19.

 “Acredito que dentro da vila tem muito mais gente infectado do que ficamos sabendo. Por isso, nossa preocupação com o pessoal do grupo de risco. A gente não larga essa turma de jeito nenhum. Eles são as meninas dos nossos olhos”, entusiasma o presidente da Associação dos Moradores da Vila.

Choro que segue

Para a periferia não contar apenas com a ação de voluntários, seja moradores das periferias ou de outras regiões, a prefeitura de BH promete maior proximidade na busca pelo controle da pandemia. O Ministério da Saúde autorizou a criação de 23 centros comunitários de referência para enfrentamento à Covid-19, para atender pessoas com suspeita da doença e de gripe nos territórios da capital.  

Porém, não há previsão para o início dos serviços, que, de acordo com a prefeitura, vão funcionar em áreas anexas aos centros de saúde:

Alto Vera Cruz, Cabana, Cafezal, Califórnia, Conjunto Paulo VI, Efigênia Murta (Ribeiro de Abreu), Francisco Gomes Barbosa (Tirol), Goiânia, Havaí, Independência, Mariano de Abreu, Marivando Baleeiro, Novo Horizonte, Padre Tarcísio, Paraíso, Pilar-Olhos D´água, São Paulo, Taquaril, Ventosa, Vila Cemig, Vila Leonina e Vila Maria.

O objetivo é fazer com os postos de saúde voltem a oferecer normalmente serviços de acompanhamento de pessoas com doenças crônicas e consultas voltadas para a saúde da mulher e das crianças.

Apesar da expectativa de melhora da atuação da saúde pública nas periferias, Belo Horizonte continua a chorar por quem sempre chorou. 

Texto do voluntário Ives Teixeira Souza 


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