Transvivências: um olhar especial para a população trans de BH e região

Criado em agosto de 2019, o projeto Transvivências busca acolher a população transexual de BH e região metropolitana através de rodas de conversa e auxílio às necessidades básicas. Na pandemia, expandiu sua atuação para mais pessoas em situação de vulnerabilidade

  • Data: 10 de setembro de 2020
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Historicamente estigmatizada e marginalizada, a população transexual padece de diversas ausências, seja de acesso à saúde, a bens materiais ou a oportunidades de emprego formal. Ela também é fortemente atingida por violências como assédio verbal, agressão física, exclusão familiar, dentre outros. Segundo o dossiê elaborado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais – ANTRA em 2019, o Brasil continua sendo o país que mais mata travestis, transexuais e pessoas não-binárias no mundo. Em 2019, foram confirmadas informações de 124 assassinatos de pessoas trans, sendo 121 travestis e mulheres transexuais e 3 homens trans. Destes, a ANTRA levantou que apenas 11 casos tiveram os suspeitos identificados, o que representa 8% dos dados, e que apenas 7% estão presos.

Sensibilizado por essa situação e por sofrer na própria pele essas ausências, violações e estigmas, Gael Stochi, homem transexual de 26 anos, criou o projeto Transvivências em agosto de 2019. Inicialmente, o projeto oferecia rodas de conversa para pessoas trans de Belo Horizonte e Região Metropolitana sobre qualificação profissional e pessoal. O objetivo era oferecer novas perspectivas para essas pessoas, formá-las de alguma forma para que alcançassem melhores condições de vida. Nas rodas de conversa também eram discutidas as formas de violência, os meios para enfrentá-las e manterem sua dignidade.

Além das rodas, Gael identificou, nos abrigos e albergues, que faltavam às pessoas trans itens de higiene pessoal. Também percebeu as graves condições de segurança alimentar em que essas pessoas se encontravam nas comunidades periféricas, sem ter o que comer e beber. Dessa forma, o trabalho ampliou para a produção e distribuição de kits de higiene e cestas básicas.

“Quem sabe quem está sofrendo é quem está precisando. Foi um momento em que entendi o que é passar fome, o que é abrir a geladeira e não ter nada para comer e para beber. Eu sei o que a minha gente tá passando”, afirma Gael.

Situação e atuação diante da pandemia

Com o início da pandemia, Gael foi premido pela intensificação da fome nas periferias e avaliou a necessidade de expandir a atuação do Transvivências para além da população transexual. Passou a atender, então, famílias e pessoas das periferias de Belo Horizonte, principalmente do Morro do Papagaio e das comunidades na divisa com a cidade de Sabará. “Se antes da pandemia eu levava 100 cestas básicas, hoje levo aproximadamente 800”, conta Gael.

Com o aumento da demanda, veio o aumento dos desafios. Gael intensificou seu trabalho de cadastro das pessoas e famílias, para que pudesse solicitar o auxílio oferecido pela Prefeitura de Belo Horizonte; realizou campanhas de arrecadação de doações de alimentos, material de limpeza, higiene pessoal e roupas. Tudo isso sem perder de vista o objetivo maior do projeto que, segundo ele, é levar qualificação e formação para as comunidades periféricas e, preferencialmente, para as pessoas trans que nelas vivem.

O Transvivências tem realizado “varais solidários” nas comunidades, onde as roupas doadas são penduradas para que aqueles que precisam possam escolher e levá-las. Também produzem refeições para a população de rua, além de oferecem cursos online de qualificação profissional. São ofertados cursos de inglês, bolos e doces, tranças e designer de sobrancelha. Em breve, esperam oferecer cursos de informática e barbeiro. Com esses cursos, a ideia é que os beneficiados possam incrementar sua fonte de renda.

Você pode contribuir com doação de cestas básicas (combinar com Gael Sotchi 31 97309-7594) ou doação em dinheiro na conta bancária:

CPF: 11358401640
Nome: Sara Alves Calixto
Banco Caixa Econômica Federal
Agência: 1022
Operação: 013
Conta Poupança: 00322661-6

É possível doar também pela vaquinha online: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/ajuda-jovens-trans

As dificuldades de uma militância trans

Mesmo estando disposto a fazer todos esses corres sozinhos, Gael nos relatou que sofreu, e ainda sofre, resistência de algumas comunidades ao recebê-lo. Muitos alegam que ele é “estranho demais”, “diferente demais” e, por isso, não recebem as cestas. Ele, inclusive, chegou a ser hostilizado, maltratado. Como o levantamento da ANTRA demonstra, a transfobia, o preconceito e a violência de gênero imperam no país, e essa situação não é diferente nas periferias, o que torna a pessoa trans ainda mais marginalizada nesse cenário.

Diante disso, mais uma vez, Gael ressaltou o porquê tem o sonho de ampliar as qualificações e formações que o Transvivências oferece:

“Tive a ideia das formação para que as pessoas trans que nem conheço possam acabar os estudos. Sem algum tipo de formação, e sem conseguir um emprego, a mulher trans vai para a prostituição e o homem trans comete suicídio. Além disso, o corpo trans é lido como um corpo de fetiche. Então, se eu não conseguir qualificar os meus, eles vão virar estatística. Os cursos de qualificação vão ajudar no currículo, para que essas pessoas tenham oportunidades”.

Matéria escrita pela voluntária Laura Pimenta


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