Ação social da torcida Fiel BH leva alento às famílias do Jardim das Castanheiras

Torcida organizada do Sport Club Corinthians Paulista em Belo Horizonte, a Fiel BH, uniu forças para mitigar as consequências da pandemia de Covid-19 e de outros problemas gerados pelo descaso do Poder Público no bairro Jardim das Castanheiras, Sabará.

  • Data: 23 de novembro de 2020
  • Categoria(s): DestaquesTá dando certo

Parece inusitado falar da atuação de uma torcida organizada de um time de futebol paulista em ações sociais em Belo Horizonte e região metropolitana. Contudo, essa atuação fez toda diferença para a comunidade do bairro Jardim das Castanheiras, em Sabará. Historicamente negligenciado pelo poder público municipal, o bairro padece de sérios problemas de infraestrutura: falta asfaltamento, coleta de lixo, ligações sanitárias adequadas, dentre outras coisas. Ademais, as famílias que lá residem são de baixa renda e, com a pandemia de Covid-19, sofreram ainda mais com a falta de alimentos, materiais de higiene e limpeza.

Muito além de apoiar e torcer pelo time do coração, a torcida de corintianos aqui em Belo Horizonte, a Fiel BH, fundada em 2003, desenvolve trabalhos sociais importantes. Foi através desse compromisso social que, desde 2015, trabalha em parceria com a ONG Rede Amor ao Próximo na comunidade Jardim das Castanheiras. Segundo a designer gráfico Talitha Vieira Bastos Simabuku, membro da torcida, o trabalho no bairro começou por indicação de um dos torcedores. Naquele ano, a primeira ação foi uma campanha para o Dia das Crianças.

“Em 2015 a gente esteve lá pela primeira vez, fazendo a campanha no Dia das Crianças, com distribuição de lanches e brinquedos para todas as crianças da comunidade. A escola cedeu o espaço para ação, foi muito bacana. Desde então, atuamos em campanhas de agasalho e de arrecadação de alimentos”, afirma Talitha.

Durante a pandemia

Com a emergência da pandemia de Covid-19, a torcida Fiel BH se organizou para ajudar os moradores da comunidade Jardim das Castanheiras a suprir suas necessidades básicas de alimentação e higiene, através de campanhas de arrecadação desses itens em parceria com a ONG Rede Amor ao Próximo. Talitha, que é o contato principal entre a torcida e a ONG, nos contou que, nessa articulação, foram relatados alguns problemas estruturais críticos da comunidade.

“Como o bairro fica na divisa de Belo Horizonte e Sabará, próximo ao bairro Taquaril, as prefeituras ficam num jogo de empurra-empurra: ‘Ah, isso aqui não é da minha alçada. Ah, isso aqui não pertence ao meu município, então isso não é responsabilidade minha’. Em 2015, primeira vez que fomos lá, o bairro não tinha asfaltamento, nem na via principal nem nas demais vias”, ressalta Talitha. Contudo, nesses cinco anos de atuação, foi possível ver o asfaltamento da rua principal chegar após 30 anos de impasse com a prefeitura. Nessa rua principal passam as duas únicas linhas de ônibus do bairro e é onde é feita a coleta de lixo de toda a comunidade.

Talitha reuniu um grupo de pessoas para uma visita à comunidade. “Vimos que falta saneamento básico, falta iluminação, falta tudo!”, afirma a designer. O grupo fez o percurso que parte dos moradores realizam para ir da rua principal às suas moradias e pôde vivenciar na pele a situação precária do local. Foi então que eles decidiram fazer uma vaquinha online, mobilizando toda a torcida, para arrecadar fundos para a construção de uma escada de acesso. Essa escada, com cerca de 200 degraus e sem corrimão, dá acesso a parte asfaltada da comunidade, única via de acesso ao bairro.

A construção da primeira escada de acesso

A Fiel BH encarou o novo desafio: construir uma escada de acesso, mesmo sabendo ser essa uma responsabilidade do poder público. Uma construção desse tipo demanda materiais específicos e mão de obra. O projeto era ambicioso.

Com as vaquinhas online, sem nenhum patrocínio de entidades ou apoio do poder público, a torcida conseguiu arrecadar recursos para a compra dos materiais necessários para a construção. A mão de obra ficou por conta da própria comunidade, que colocou a mão na massa, arregaçou as mangas e construiu a escada com solidariedade e empenho coletivo.

“Essa obra é o direito de ir e vir. Imagina: choveu e você não consegue sair da sua casa, ou você tem mais de 70 anos e não tem condições de subir uma ladeira íngreme de terra, porque você pode se machucar… Uma das moradoras relatou para gente que depois de um certo horário eles não saem, pois como não tem iluminação e tem cobra, tem bichos no meio do mato, as chances de você se machucar de outras formas também é grande. E se chover, a situação piora de vez. (…) A gente ficou bem feliz por saber que agora uma senhora de 70 anos vai conseguir subir e descer sem maiores problemas, que uma criança poder subir e descer sem correr o risco de se acidentar. A nossa preocupação com esse acesso foi justamente por isso”, relata Talitha.

Além da escada, outras demandas foram surgindo. O mutirão se prontificou a construir acesso para uma moradora grávida, mãe de três filhos, que usava uma escada improvisada de bambu para chegar até sua casa. Durante a construção da escada, o mutirão trocou algumas tubulações que passavam pelo terreno, emendadas com garrafa pet, totalmente improvisadas.

O trabalho na comunidade ainda é árduo e longo. Não se trata apenas da construção da escada de acesso, mas da solução de muitos problemas que deveriam receber os cuidados do poder público municipal.

“A verdade é que a situação da comunidade é de abandono. Tem gente que mora no meio do matagal. Além disso, o pessoal da própria comunidade é muito desacreditado no poder público, pois ele deixa muito a desejar. Eles já não têm expectativas”, afirma Talitha.

Diante desse cenário, a torcida tem a pretensão de construir outras escadas de acesso, assim como atender as necessidades básicas de alimento e materiais de higiene pessoal. Para o próximo ano, a ideia é a introdução da horta comunitária dentro de alguns pontos da comunidade e possivelmente a criação de uma biblioteca.

A parceria com o Periferia Viva

A parceria da Fiel BH e a ONG Rede Amor ao Próximo com o Periferia Viva se deu através da indicação de um dos membros da torcida. Para Talitha, tal parceria foi surpreendente:

“Eu fiquei muito perplexa e muito realizada quando me adicionaram no grupo. Eu tive contato com outras pessoas, e aí a gente vê que essa luta não é só nossa, tem muita gente envolvida, tem muita gente passando pelos mesmos apertos. É muito gratificante essa troca de experiências, essa troca de vivências, de saber de outros líderes comunitários que não abandonam a luta, fora a visibilidade também. Eu estive com a minha mãe e fiz questão de mostrá-la, de entrar no site do Periferia e mostrar para ela os outros projetos que estão ativos e a importância disso”, enfatiza a designer.

Matéria escrita pela voluntária Laura Pimenta